19 Novembro 2014

O Adolescente na ótica da Psicanálise.

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O ADOLESCENTE NA ÓTICA DA PSICANÁLISE

Veruska de Lima Festugato

  Resumo: A adolescênciaé marcada por transformações hormonais e diferenças que aparecem no corpo e que vêm carregadas de atributos sociais, sendo necessário compreender esse momento para poder tratar o sujeito na clínica psicanalítica. O objetivo deste trabalho é apresentar a constituição do adolescente como sujeito e as possibilidades de trabalho de análise na clínica psicanalítica. A constituição do sujeito se dá juntamente com o desenvolvimento, sendo que o surgimento do sujeito está relacionado com o funcionamento psíquico do processo evolutivo. Compreender a adolescência e o adolescente, como o sujeito experimenta as mudanças na vida psíquica, a relação com o próprio corpo e com o Outro, suas dificuldades e desafios em criar novos laços e escolhas, estabelecer limites, é apenas um dos aspectos que precisam estar presentes na análise. Cabe ao analista entender que a adolescência é também o período em que o sujeito experimenta o sentimento de estranheza em relação ao seu corpo, e que busca resolver suas impossibilidades através de atos nem sempre responsáveis. Pode-se concluir que a demanda de análise para com o adolescente deve partir dele e ainda assim, corre-se o risco de haver a recusa destes em relação à análise.

Palavras-chave: Adolescência.Constituição.Psicanálise.

INTRODUÇÃO

O estado vulcânico do adolescente, é preciso apreendê-lo, é preciso utilizá-lo.

Pierre Mále (1972)

                                                                                                                       

O interesse pelo estudo da adolescência vem em decorrência da observação do cotidiano e movimento feito pelos sujeitos que se encontram nesta fase da vida.

Analisando os termos biológicos para a explicação da adolescência, percebe-se que a instalação da adolescência será a passagem do recém-nascido para a vida adulta, a puberdade, que é marcada por transformações hormonais e diferenças que aparecem no corpo. Porém estas transformações biológicas e fisiológicas vêm carregadas de atributos sociais, e se faz necessário uma compreensão sobre o momento adolescência, saber que é momento de deixar para trás a criança idealizada pelos pais e que isto significará tempo de desinvestimento, de busca de uma identidade sexual, e serão aí instituídas as crises da adolescência. Em busca de uma identificação com o mundo que lhe foi ‘dito na infância’ encontrará as faltas, conflitos e as Crises – termo jurídico que, em sua etimologia grega, significa – o momento da sentença, pois o sujeito deixa o seu corpo infantil e passa a ‘habitar’ um corpo que se prepara para a vida adulta (CAHN, 1999).

           Contudo, dentro da perspectiva a ser estudada, do psíquico, não caberia falar em etapas da vida por critérios biológicos.

Um estudo psicanalítico sobre a adolescência, ao contrário da psicologia desenvolvimentista, requer algumas considerações, antes de tudo porque a psicanálise é o inconsciente constituído na infância, através da vivência edípica, que se revela o cerne do psiquismo.

Neste sentido, o modelo, por principio, do funcionamento psíquico, é constituídas de um primeiro tempo, em que ocorre a estruturação psíquica do sujeito através do Édipo, passando pelo período de latência e seguidas pela adolescência, que tem função de segundo tempo, tempo de revivescência e de re-significações. Será através da experiência vivida nesta fase do Complexo de Édipo que se dá “tudo”. Reviver então, como aponta Lacan (1986, p. 21) seria “a história não é o passado. A história é o passado na medida em que é historiado no presente – historiado no presente porque é vivido no passado”.

Por ser tão importante que costuma ser “motivo de preocupação”, a compreensão do que permeia estas relações se faz necessário para uma futura analista que quer se aventurar na subjetivação do Adolescente.

Nessa perspectiva, esse trabalho tem como objetivo apresentar a constituição do adolescente como sujeito e as possibilidades de trabalho de análise na clínica psicanalítica.

ENCONTRO COM O NOVO

Diante da proposta de se aventurar na subjetivação do adolescente faz-se necessário entender como a constituição do sujeito se dá anteriormente.

A constituição subjetiva foi estudada por Freud, inicialmente, o qual procurou esclarecer como o ser humano se constituía como sujeito. Para Freud, o inconsciente é atemporal, mas o aparelho psíquico funciona de molde a fazer surgir o sujeito. Assim, compreender como se dá o funcionamento psíquico no processo evolutivo possibilita reconhecer quando ocorre o surgimento do sujeito, como ele se constitui (MEDEIROS; MARIOTTO, 2006).

O termo sujeito não está presente nos textos de Freud, mas foi introduzido na psicanálise por Lacan. Está, no entanto, implícito nas obras de Freud. Contudo, deve-se entender que há diferenças entre o “eu” proposto por Freud e o “sujeito” em Lacan. O Eu entendido como das Ich (Imago) “é uma instância intrapsíquica mergulhada no sistema percepção-consciência, servidor de numerosos mestres (o isso, o superou, a realidade exterior); não há nenhuma suposição de um sujeito” (BRUDER; BRAUER, 2007, p. 516).

Já o sujeito do inconsciente, proposto por Lacan, é o sujeito do desejo, do gozo e é sobre esse sujeito do inconsciente que o tratamento analítico opera. O sujeito não se confunde com o indivíduo, o ser, e se constitui a partir de uma causa, que é a linguagem, pela qual o inconsciente se estrutura. Segundo Lacan (1998, apud CIRINO, 2001, p. 52), “O efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da causa que o cinde. Pois sua causa é o significante sem o qual não haveria nenhum sujeito no real”.

Assim, ser e sujeito são disjuntos. Lacan percebe o sujeito a partir do cogito cartesiano que, à luz da psicanálise, descobre o inconsciente na medida em que suas formações não comportam um sujeito capaz de acompanhar suas representações e se assegurar da continuidade de seu ser. Mediante uma escolha forçada entre o “não penso” e o “não sou” o EU se estrutura como posição simbólica do sujeito simultaneamente ao aparecimento do EU como construção imaginária (BRUDER; BRAUER, 2007).

O sujeito, assim, é uma resposta do real ao encontro do significante e não tem nada em comum com a consciência, correspondendo à inscrição de uma falta. Por isso, o sujeito só é reconhecido na cadeia significante, quando reconhece a presença de algo que só pode contar quando falta. A estrutura da linguagem provoca um déficit no gozo do sujeito, constituindo o que Lacan chama falta-a-ser. Os significantes, que constituem os elementos simbólicos, tomam lugar na estrutura, onde um elemento significante remete ao outro, em cadeia e em oposição ao outro. Nesse critério posicional, o lugar do Outro, enquanto sistema simbólico determina a posição do sujeito desde sua aparição. O sujeito, assim, se constitui a partir de uma ordem anterior e exterior a ele, e da qual depende, ainda que pretenda dominá-la. O sujeito, assim, somente é sujeito em virtude da sujeição ao campo do Outro (CIRINO, 2001).

Conforme Evelyne Kestemberg (1984) “se tudo é preparado na infância, até mesmo na mais tenra infância, talvez mesmo nos primeiros dias de vida, tudo é jogado na adolescência”.

Sendo assim, trabalhar com o adolescente é “remontar” com intensidade a sua história já vivenciada, marcada pelo real e pelo imaginário do corpo no esquema mental. Para entendermos como isto se dá associou-se as contribuições de Lacan sobre o estádio do espelho. Apreende-se inicialmente que o corpo vê-se no espelho do Outro, marcando a impotência primitiva do ser humano de ter um domínio do real do seu corpo.

Primeiramente o sujeito se reconhece tendo um corpo na medida em que os outros que lhe dizem, ou como diz Lacan "temos um corpo como o deles". Será aí que se introduz uma falha especial: o não acoplamento do imaginário e do real. Vemos então, distintos o i(a) – a imagem do corpo que se origina na experiência especular – de a, objeto que não tem imagem especular, oculto na referência ao Grande Outro. Ou seja, o corpo constituído em uma imagem tem um ponto de opacidade, um ponto de condensação libidinal, ao redor do qual giram todas as identificações do sujeito (LACAN, 1963).

Lacan destaca que, “diante do espelho, a criança se reconhece e é reconhecida pela mãe, o eu aí se constituiu na medida em que é imaginário, ou seja, efeito de duplo olhar, o que se dá ao preço de um desconhecimento e de uma alienação do sujeito” (RASSIAL, 1999, p. 45).

Neste período onde há um luto do corpo a ser elaborado, é o luto dessa parte do corpo sempre perdida. Assim como a primeira tomada do corpo como totalidade no estádio do espelho deixa um resto, também na adolescência o real do sexo, o buraco aberto pela sexualidade, traz a dor da perda de algo que não foi levando o simbólico a produzir significantes na tentativa de dar conta da hiância que retorna. É um momento de intensificações das fantasias e das buscas de identificações ideais através dos grupos (LACAN, 2005).

Nas palavras de Lacan (1963): "[...] propor-me como desejante é propor-me como falta de a, trata-se aí de sustentar que é por esta via que abro a porta ao gozo do ser" – gozo do ser, do ser do Outro, que se resume no ser do corpo.

O adolescente, ao se deparar com o Outro, encontra-se consigo, mas ainda encontra-se com o processo de separação. Como nos diz Alberti (2004, p. 16), o adolescente deve saber que não há como escapar do desamparo fundamental intrínseco ao ser humano, por mais dolorosa que seja essa constatação ele já sabe que o Outro não pode protegê-lo, apenas enriquecê-lo com algum recurso para encarar o desamparo sozinho.

A partir daí o adolescente se encontra face a uma estrutura anteriormente montada e agora desorganizada, e ainda sobre a interrogação, o ser é reavivado e o alicerce especular deixa aparecer suas fraquezas. O Outro anteriormente referido a mãe e o Outro do Édipo dos pais é redirecionado, imaginariamente ao Outro sexo. O Édipo coloca a criança frente a sexualidade como um ser sexuado, onde a mãe é o primeiro objeto de investimento, tendo também o investimento da mãe (RASSIAL, 1999).

Para que a criança não permaneça nesta posição de desejo e desejante da mãe, o Nome-do-Pai barra este desejo de ambos para fora do seio familiar, onde se dá a elaboração do Complexo de Édipo e institui-se a sexualidade em relação ao Outro, a bissexualidade segundo Freud, pois o sujeito determina sua sexualidade, ou identificação sexual, de acordo com sua constituição psíquica.

Quando se depara com o falo como significante da falta, esta condição colocará o sujeito frente a uma posição de castração, já vivida pelo complexo de Édipo e será assim que o sujeito entrará na adolescência, e é assim que vai se deparar com a Mulher.

Não há tomada de posição na partilha dos sexos – seja do lado do homem, seja do lado da mulher – que não implique o encontro com a Mulher [...] O rapaz passará a sua adolescência tentando elaborá-lo e, na tentativa de lidar com o tal encontro, muitas vezes dividirá as mulheres entre aquelas que ama e aquelas que deseja. Do lado da moça adolescente, o encontro com o sexo normalmente a lança na questão: o que é uma mulher. Como devo ser para assim me situar. E, a partir daí a jovem se Lana na tentativa de com Ela se identificar, elegendo –a como objeto mais precioso, num movimento que Freud já reconhecia como sendo o da Bissexualidade própria da histeria. (ALBERTI, 2004, p. 30).

O conceito bissexualidade vem para definir a oposição entre passividade e atividade, ou seja uma dualidade, “quando Freud utiliza essa palavra não visa uma divisão dos sexos, uma oposição masculino-feminino. Ele designa uma polaridade que assume o lugar da diferença entre os sexos” (SERGE, 1991, p. 19).

Conforme este autor, pode se perceber através dos estudos de Freud, em nota de 1915, em “As Pulsões e Suas Vicissitudes”, que a pulsão sexual, não é macho-fêmea, mas assexuada. Sendo que a diferença anatômica não se significa ao nível do inconsciente, como divisão. Para que esta diferença anatômica seja significada no simbólico, se faz necessário que o menino entre em contato com o medo de castração, já visto na menina, ou seja, aí existe o surgimento do falo como significante faltante na estrutura do adolescente.

A descoberta da castração da mãe acarreta, tanto para o menino quanto para a menina, uma desvalorização do personagem materno, além do mais a menina, ao tornar a mãe responsável por sua própria falta de pênis, junta a esse desprezo um ressentimento, que se traduz por desejo, com relação aquele que tem pênis. (SERGE, 1991, p. 19).

Dessa forma, o adolescente é colocado em contato com sua dualidade. O adolescente diante de sua constituição é um sujeito transgressor que oscila entre a alienação e separação. Ele se experimenta além de estar alienado ao desejo que é sempre o desejo do Outro, é preciso se haver com a separação propriamente dita e ainda situar-se quanto a sua sexualidade. Alberti (2004, p. 25), diz que se os pais da realidade vão perdendo a sua função junto ao adolescente, isto só pode acontecer no caso de o Nome de Pai barrar a submissão ao Outro que impediria qualquer separação. Ou seja, para haver uma separação é preciso que efetivamente o outro possa ser dialetizado, relativizado, no sentido de lhe ser impossível uma onipotência que impediria ao sujeito fazer o que quer que fosse escapando a sua presença.

Relações estas que foram marcadas em “O Despertar da Primavera”, 1891, onde Lacan mostra como se dá esta interseção, que vem representar a peça de Frank Wedeking, 1976, dramaturgo que, segundo Lacan, permanece ortodoxo ao dito de Freud (LOPES; SARUÉ, 1995).

A peça conta a história de adolescentes que entram em contato com o novo, com a sexualidade, alienação e separação e com todas as “loucuras” desta fase. Temos dois momentos em que a personagem de Wendla retrata sua fase, onde faz uma recusa ao gozo à sexualidade, e o encontro com a representação do Outro – olhar do outro quando recusa usar o vestido comprido que sua mãe lhe fez. E ainda quando solicita que o Melchior lhe bata com a vara. Lacan, no “Seminário XX”, afirma que o sexo da mulher não lhe diz nada a não ser por intermédio do gozo do corpo. Ela é não - toda, tendo em relação à função fálica um gozo suplementar. No “Objeto da Psicanálise”,lemos que "[...] o masoquismo feminino é, em último termo, o perfil do gozo reservado a quem entraria, no mundo do Outro, em tanto que este Outro seria o Outro feminino, quer dizer a Verdade". A Verdade, portanto, está do lado d'A Mulher, como não - toda, que diz de a como o resto que cai do campo do Outro. É somente pelo corpo que algo disso se sabe, mas enquanto pedaço do corpo perdido (LOPES; SARUÉ, 1995).

Será no corpo e através dele que o adolescente experimentará essa pulsão Falar do corpo. É justamente ai que aplica-se o que nos diz Moliére (1966, p. 33): “Eis justamente o que faz de sua filha uma muda”. O corpo recebe novos atributos nesta fase, porque a genitalidade ocupa uma posição dominante para o sujeito-adolescente. Ou seja, o corpo não somente é mais o mesmo, como também ocupa outro lugar. A adolescência é um momento de privilégio na vida do sujeito, pois possibilita o encontro de fato com a sexualidade, organiza sua posição, sua nova posição – o sujeito deve responder com os meios que se dispõe. É nesta resposta que podemos articular o adolescente com a psicanálise.

O ADOLESCENTE EM TRABALHO COM A PSICANÁLISE

O analista que se propuser a aceitar o adolescente para o trabalho de análise deve estar preparado para a rejeição. Em sua maioria, o trabalho realizado com adolescentes é iniciado por demanda dos pais.

Para dar início aos estudos sobre o adolescente, Dolto coloca este alerta:

Se a adolescência é realmente o momento do trabalho do luto da ‘compreensão dos adultos’, o analista deve, desde o inicio da cura, aceitar que um dia vai ter que ser rejeitado pelo adolescente, não como inimigo, mas como um sujeito qualquer, por outro lado, não deve se refugiar sob o que seria sua compreensão do outro. (apud RASSIAL, 1999, p.159).

Dolto (1990), afirma que o fim da adolescência representa a aceitação do luto, primeiro dos pais, que nunca os compreenderão, e depois, de ser compreendido pelo analista. Para este autor, o psicanalista faz parte do luto que o adolescente tem que fazer, o luto de encontrar adultos que possam compreendê-lo.

Assim, no trabalho clínico, num primeiro momento o adolescente identifica o analista como os adultos de sua vida, incluindo os pais, ou seja, um sujeito incapaz de atender a sua demanda. Para o adolescente a análise se situará na desconstrução das figuras do Outro, até uma retrospectiva, para que num segundo tempo, uma análise do fantasma seja possível.

O adolescente passa por vários “especialistas”, que se mostram compreensivos, mesmo que seja uma forma de banalizar ou na forma de medicar, faz-se aí os discursos cotidianos. Para Dolto (apud RASSIAL, 1999, p. 162), o lugar analítico é primeiramente o lugar onde é possível calar, de tal modo que o silêncio não seja reduzido a signo de uma impotência em falar, com a condição, naturalmente, de que o analista se descentre desta exigência mundana de tudo explicar, ou então de se queixar do que não se compreende. O contato com o adolescente é algo peculiar, ou seja, esta relação não se apoia senão em suas decisões pois, segundo Winnicott, o analista deve ter uma atitude profissional sustentada na sua própria análise e confirmada pelas supervisões. Isto porque, na posição de adulto, o analista efetuou, ele também, o recalque das questões do adolescente que fizeram retorno em sua própria análise, podendo ainda se identificar constituindo um risco contra-transferencial.

Durante as entrevistas preliminares, portanto, deve se evitar ser colocado na posição do grande Outro, ou ser atraído, pela transferência do adolescente, para uma posição perversa de mestre. Mas por contra partida, graças a esta transferência o analista é colocado no lugar de quem sabe, e se deve a este fato a transferência - o lugar de Suposto Saber.

O conceito de Sujeito Suposto Saber, como entendemos, se destaca como uma proposta de estruturação lógica do fenômeno da transferência analítica em todas as suas manifestações (repetição, sugestão, resistência). “O saber que só se revela no engano do sujeito, qual pode realmente ser o sujeito que o sabe de antemão”? (LACAN 2003, p. 337), pode estar ai estabelecida uma resistência por parte do adolescente, pois se deparar com suas faltas é colocá-lo em prova, diante do luto da infância.

Contudo, é bem demarcada a posição de Lacan, segundo a qual o analista não pode ocupar o lugar do Outro, já que “o Outro não é um sujeito, é um lugar para o qual nos esforçamos [...] por transferir o saber do sujeito” (Lacan apud PORGE, 1996, p. 550).

Conforme Miller (1991, p. 139-140), diferentemente do adulto e da criança, o adolescente procura um lugar, uma identificação. O adolescente é obrigado a “condenar” as identificações do passado, mas também construir sabendo que não é adulto, produz aí uma ruptura de identificação no nível do eu. O trabalho do analista se instaura aí, no processo de identificação do adolescente, pois o adolescente. Ainda, a busca de tratamento, nesse momento, não implica só em se ter uma questão constituída que causa sofrimento, mas também, em poder-se suportar olhar para ela, pensá-la, enquanto vai sendo delineada e recortada no discurso. E, quase sempre, o intrapsíquico constitui-se em algo ameaçador enquanto conhecido/desconhecido, volta do reprimido, aquilo que causa terror ser pensado. Enfim, trata-se de enfrentar o estranho em si mesmo e a cena analítica representada principalmente pelo silêncio do analista, transforma-se em algo extremamente persecutório e, muitas vezes, impossível de ser sustentado nas entrevistas iniciais. A inquietante estranheza descrita por Freud (1919/1996) sobressai-se e invade o processo de pensar.

CONCLUSÃO

O presente trabalho nos coloca em contato com a fase da vida onde o sujeito se prepara para a vida adulta. A fase da adolescência, diferente da puberdade não tem tempo pré-estabelecido, e seu desenvolvimento fisiológico não andará junto ao psíquico. Entender que é uma fase de crise necessária reduz o analista a se encontrar com sua adolescência, reestabelecendo novas crises que podem não terem sido elaboradas, sendo importante que isto seja anunciado em sua análise. Diferentemente de outros especialistas o analista deve tomar uma posição que não seja de satisfação do seu analisando e nem de tentar explicar algum fenômeno.

A compreensão da adolescência e do adolescente, de como o sujeito experimenta as mudanças na vida psíquica, na relação com o próprio corpo e com o Outro, suas dificuldades e desafios em criar novos laços e escolhas, estabelecer limites, é apenas um dos aspectos que precisam estar presentes na análise. Cabe ao analista entender que a adolescência é também o período em que o sujeito experimenta o sentimento de estranheza em relação ao seu corpo, e que busca resolver suas impossibilidades através de atos nem sempre responsáveis. Ouvir, falar e deixar o adolescente falar são aspectos essenciais para que ocorra a transferência.

Pode-se concluir que a demanda de análise para com o adolescente deve partir dele e ainda assim, corre-se o risco de haver a recusa destes em relação à análise. Nesse sentido, é relevante que se conheça mais profundamente as questões que envolvem a constituição do sujeito na adolescência para que se possa compreender as dificuldades específicas dessa fase, que traz consigo profundas crises ao adolescente e alcança, também aqueles com que ele convive. Assim, torna-se mais fácil alcançar uma identificação positiva com o adolescente, possibilitando um tratamento adequado à demanda por ele trazida à clínica.

REFERÊNCIAS

ALBERTI, S. O adolescente e o outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

BRUDER, M. C. R.; BRAUER, J. F. A constituição do sujeito na psicanálise lacaniana: impasses na separação. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722007000300008>. Acesso em: 20 out. 2014.

CAHN, R. O adolescente na psicanálise: a aventura da subjetivação. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

CIRINO, O. Psicanálise e psiquiatria com crianças – desenvolvimento ou estrutura. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

DOLTO, F. A causa dos adolescentes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

FREUD, S. O Estranho. 1919. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol.XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

MILLER, J. (org).A criança no discurso analítico. Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 1991.

LACAN, J. A letra n. 9. Seminário A Angústia,13 jul. 1963.

LACAN, J. Revista do Departamento de Psicologia - UFF, v. 17, n. 1, p. 113-127, jan./jun. 2005.

LOPES, A. G; SARUÉ, S. A adolescência e o tornar-se desejante. Letra Freudiana, a. X, n. 9, 1995. p. 75-83.

MEDEIROS, M. S.; MARIOTTO, R. M. O tempo da constituição do sujeito. In: BERNARDINO, L. M. F. (org.). O que a psicanálise pode ensinar sobre criança, sujeito em constituição. São Paulo: Escuta, 2006. p. 43-56.

MOLIERE, T. Le Médecin malgre lui, ato II, cena IV, o Eivres Completes, t. II Garnier Flammarion, 1966, p. 33.

PORGE, É. Transferência. In: KAUFMANN, P. (Org.). Dicionário enciclopédico de psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1993. p. 548-556.

RASSIAL, Jean Jacques. O adolescente e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud,1999.

SERGE, A. O que quer uma mulher. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

Última modificação em Segunda, 02 Março 2015 16:16